rangelNão há mais tempo ou espaço para um Aragorn cordial, ingênuo, amistoso e escapista. É tempo de conhecer suas trevas; seus talentos e o poder que existe na condição de ser o herdeiro do trono de Isildur.

A jornada de todo aquele busca a meta da individuação não termina sem antes do confronto com a sombra. Como já vimos na trajetória de Frodo e Gandalf, após a confrontação com a sombra, ambos os personagens tiveram acréscimos em suas personalidades. O confronto de ego e sombra em Passolargo aparece simbolizado em sua ida a Sendas dos Mortos. Na confrontação do ego com a sombra os conteúdos antes reprimidos e ocultos se tornam disponíveis. Estes conteúdos presentes na consciência irão se tornar importantes ferramentas nas decisões a serem tomadas.

O simbolismo de descer às profundezas dos mortos é um tema arquetípico, presente em muitos temas mitológicos e ou religiosos. O herói sempre sofre algum tipo de transformação em sua catábase. O herói da mitologia grega Ulisses fora instruído de que para ter sucesso em sua jornada de volta para casa, deveria ir até o Hades, o mundo dos mortos. Lá ele receberia a orientação do sábio Tirésias a respeito do caminho a ser percorrido. Aragorn em sua caminhada até o mundo dos mortos receberia mais do que uma simples orientação, receberia sua honra e seu reconhecimento de ser rei.

Com todo um exército recebendo suas ordens, só o fariam por reconhecê-lo como rei. Muitas vezes consideramos muitas de nossas características e ou talentos como “mortos” em nossas personalidades, um grande engano. Algumas situações nos parecem desafios maiores do que a nossa própria capacidade, podemos nos sentir inferiores e não capacitados, assim como Aragorn. Porém, sempre quando enfrentarmos a nossa insegurança e o nosso medo de amadurecer e mudar, passaremos pelo conflito e o inconsciente que antes parecia tão terrível e ameaçador aos planos do ego, se torna um “grande exército aliado” para batalhas que a vida possa vir a desejar nos colocar.

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Ulisses e Tirésias no Hades, o mundo do mortos

Muitas vezes, acabamos por desprezar características e ou talentos em nossas personalidades em detrimento de um auto-julgamento equivocado ou para buscar aceitação da sociedade. Com Aragorn, não foi diferente. A relação com o poder, que era exagerada em Isildur, de forma oposta veio a se manifestar em Passolargo. Talvez por saber do trágico fim de seu antepassado, Aragorn optou em não manter nenhum tipo de relação com o poder. Faltou discernimento.
 
Aragorn sempre buscou distância de suas responsabilidades como rei, não poderia mais menosprezar sua capacidade e seu legado. O que Aragorn reprimiu para sombra não foi sua responsabilidade em ser rei e sim sua capacidade em ser rei. Que sempre possamos nos lembrar que dentro de cada um de nós, talvez exista um “exército de mortos” e é neste exército que poderemos retomar e redescobrir capacidades e ou talentos por muito tempo esquecidos pela consciência, mas não pelo inconsciente. Vimos aqui o desenrolar do conflito pessoal de Passolargo em relação a assumir sua condição de herdeiro do trono de Isildur. Agora, vamos acompanhar como se manifesta o arquétipo do rei e ou salvador no comportamento de Aragorn e no decorrer da estória. 
 
 
O Retorno do Rei
 
Um tema arquetípico que se repete em diversas mitologias e ou religiões, é o tema da sucessão universal do regente e ou sistema de governo. Um sistema de governo arcaico, ultrapassado e por vezes maligno, acaba por ser deposto ou destruído pelo seu sucessor que se torna um gestor de um novo tempo trazendo renovo e progresso ao seu povo. Na mitologia grega podemos ver este tema na relação de Uranos e Cronos. Cronos castra seu pai e regente do universo Uranos, provocando a separação entre Uranos (céu) e Gaia (terra). Mediante a separação de Uranos (céu) e Gaia (terra), Cronos se torna o novo rei do Universo.  

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A Castração de Uranos, Giorgio Vasari e Cristofano Gherardi, 1560

O próprio Cronos viria a ser deposto mais tarde também por seu filho, Zeus. Cronos havia se tornado um tirano, devorador de seus próprios filhos, pois temia que um deles o destronasse como previa a profecia. O apego ao poder acabou por cegar o amor de Cronos por seus filhos e tudo que lhe interessava era tão somente o seu governo.
 
Zeus fora escondido por sua mãe Réia, que ao invés de entregar a Cronos o pequeno futuro regente do Olimpo,para ser devorado, substitui a criança por uma pedra. O rei tirano não percebeu que havia engolido uma pedra no lugar do filho. Zeus cresceu sendo cuidado por outro casal e quando chegado o tempo, a profecia se cumpriu. Cronos fora deposto por Zeus e vomitou todos os irmãos do novo rei do universo. Zeus dá início ao reinado e logo tende enfrentar um inimigo antigo, resquício de um tempo perverso e hostil. O monstro Tifão, filho de Gaia (terra) que luta pela mãe, numa tentativa de retomar o governo do universo. Zeus vence a batalha e se consolida como o rei do universo.
  
Na mitologia babilônica o tema da disputa pela sucessão do governo tirano pelo novo regente, é representado pelo mito de Marduk e Tiamat. Tiamat a criadora de todas as coisas, criou bestas para atormentar os outros deuses podendo manter tranqüilamente seu governo tirano. Os deuses se reúnem em um banquete e proclamam Marduk como seu senhor e vingador. Marduk enfrenta Tiamat e a derrota. Seu triunfo é coroado pelos deuses, elegendo-o o senhor do universo. Marduk cria mediante o corpo de Tiamat e dos corpos dos deuses súditos da rainha tirana, o Céu, a Terra o Abismo e o Homem, para servir aos deuses. 
 
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Marduk enfrentando Tiamat
 
Todos estes mitos trazem consigo o tema da necessidade de sucessão de um rei antigo que é regente de um governo tirano ou antiquado em progresso. O tema do arquétipo do rei ou do salvador do universo traz consigo a necessidade de renovação. O rei antigo precisa ser deposto, dando lugar a um novo governo, uma nova era. Podemos observar ao longo da análise como as condutas desastrosas de dois velhos governantes responsáveis por seus povos, vieram a conduzir o povo em desgraça. Primeiro Théoden estava enfeitiçado por Saruman, Rohan é devastada pelos orcs. Liberto do feitiço, Théoden toma a trágica decisão de levar seu povo para o abismo de Helm. Em Minas Tirith, cego pelo apego ao poder, Denethor toma decisões influenciadas pelo complexo de Cronos, levando seus dois filhos a sofrerem grandemente por conta de seu desejo de manter seu status. 


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A Geografia de Arda
Tolkien imaginou seu mundo de modo semelhante a forma como os antigos cartógrafos medievais. Eles mostravam a terra como um disco, com oceanos na circunferência. O topo ficava voltado para o paraíso no leste. Mas Tolkien escreveu o contrário, e segundo ele, os pontos cardeais estavam voltados para  o oeste.

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Biografia Ilustrada
Em grande parte os detalhes biográficos citados neste trabalho foram baseados ou extraídos inteiramente de informações contidas na biografia oficial do professor Tolkien, escrita por Humphrey Carpenter, editada e publicada no Brasil pela livraria Martins Fontes. Esse material é criação original da BBC inglesa e traduzido no Brasil.

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Os Homens da Escuridão
As terras de Rhún e Harad, ao Leste e Sul da Terra-média, não ficavam apenas geograficamente fora da vista Ocidental. Estas regiões nunca haviam sido do interesse dos Elfos cujas histórias tratavam principalmente de si mesmos, nem do interesse dos Númenorianos que não avançaram no interior.
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