Escrito por Rangel Fabrete
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10 Março 2010
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Não há mais tempo ou espaço para um Aragorn cordial, ingênuo, amistoso e escapista. É tempo de conhecer suas trevas; seus talentos e o poder que existe na condição de ser o herdeiro do trono de Isildur.
A jornada de todo aquele busca a meta da individuação não termina sem antes do confronto com a sombra. Como já vimos na trajetória de Frodo e Gandalf, após a confrontação com a sombra, ambos os personagens tiveram acréscimos em suas personalidades. O confronto de ego e sombra em Passolargo aparece simbolizado em sua ida a Sendas dos Mortos. Na confrontação do ego com a sombra os conteúdos antes reprimidos e ocultos se tornam disponíveis. Estes conteúdos presentes na consciência irão se tornar importantes ferramentas nas decisões a serem tomadas.
O simbolismo de descer às profundezas dos mortos é um tema arquetípico, presente em muitos temas mitológicos e ou religiosos. O herói sempre sofre algum tipo de transformação em sua catábase. O herói da mitologia grega Ulisses fora instruído de que para ter sucesso em sua jornada de volta para casa, deveria ir até o Hades, o mundo dos mortos. Lá ele receberia a orientação do sábio Tirésias a respeito do caminho a ser percorrido. Aragorn em sua caminhada até o mundo dos mortos receberia mais do que uma simples orientação, receberia sua honra e seu reconhecimento de ser rei.
Com todo um exército recebendo suas ordens, só o fariam por reconhecê-lo como rei. Muitas vezes consideramos muitas de nossas características e ou talentos como “mortos” em nossas personalidades, um grande engano. Algumas situações nos parecem desafios maiores do que a nossa própria capacidade, podemos nos sentir inferiores e não capacitados, assim como Aragorn. Porém, sempre quando enfrentarmos a nossa insegurança e o nosso medo de amadurecer e mudar, passaremos pelo conflito e o inconsciente que antes parecia tão terrível e ameaçador aos planos do ego, se torna um “grande exército aliado” para batalhas que a vida possa vir a desejar nos colocar.
Ulisses e Tirésias no Hades, o mundo do mortos
Muitas vezes, acabamos por desprezar características e ou talentos em nossas personalidades em detrimento de um auto-julgamento equivocado ou para buscar aceitação da sociedade. Com Aragorn, não foi diferente. A relação com o poder, que era exagerada em Isildur, de forma oposta veio a se manifestar em Passolargo. Talvez por saber do trágico fim de seu antepassado, Aragorn optou em não manter nenhum tipo de relação com o poder. Faltou discernimento.
Aragorn sempre buscou distância de suas responsabilidades como rei, não poderia mais menosprezar sua capacidade e seu legado. O que Aragorn reprimiu para sombra não foi sua responsabilidade em ser rei e sim sua capacidade em ser rei. Que sempre possamos nos lembrar que dentro de cada um de nós, talvez exista um “exército de mortos” e é neste exército que poderemos retomar e redescobrir capacidades e ou talentos por muito tempo esquecidos pela consciência, mas não pelo inconsciente. Vimos aqui o desenrolar do conflito pessoal de Passolargo em relação a assumir sua condição de herdeiro do trono de Isildur. Agora, vamos acompanhar como se manifesta o arquétipo do rei e ou salvador no comportamento de Aragorn e no decorrer da estória.
O Retorno do Rei
Um tema arquetípico que se repete em diversas mitologias e ou religiões, é o tema da sucessão universal do regente e ou sistema de governo. Um sistema de governo arcaico, ultrapassado e por vezes maligno, acaba por ser deposto ou destruído pelo seu sucessor que se torna um gestor de um novo tempo trazendo renovo e progresso ao seu povo. Na mitologia grega podemos ver este tema na relação de Uranos e Cronos. Cronos castra seu pai e regente do universo Uranos, provocando a separação entre Uranos (céu) e Gaia (terra). Mediante a separação de Uranos (céu) e Gaia (terra), Cronos se torna o novo rei do Universo.
A Castração de Uranos, Giorgio Vasari e Cristofano Gherardi, 1560
O próprio Cronos viria a ser deposto mais tarde também por seu filho, Zeus. Cronos havia se tornado um tirano, devorador de seus próprios filhos, pois temia que um deles o destronasse como previa a profecia. O apego ao poder acabou por cegar o amor de Cronos por seus filhos e tudo que lhe interessava era tão somente o seu governo.
Zeus fora escondido por sua mãe Réia, que ao invés de entregar a Cronos o pequeno futuro regente do Olimpo,para ser devorado, substitui a criança por uma pedra. O rei tirano não percebeu que havia engolido uma pedra no lugar do filho. Zeus cresceu sendo cuidado por outro casal e quando chegado o tempo, a profecia se cumpriu. Cronos fora deposto por Zeus e vomitou todos os irmãos do novo rei do universo. Zeus dá início ao reinado e logo tende enfrentar um inimigo antigo, resquício de um tempo perverso e hostil. O monstro Tifão, filho de Gaia (terra) que luta pela mãe, numa tentativa de retomar o governo do universo. Zeus vence a batalha e se consolida como o rei do universo.
Na mitologia babilônica o tema da disputa pela sucessão do governo tirano pelo novo regente, é representado pelo mito de Marduk e Tiamat. Tiamat a criadora de todas as coisas, criou bestas para atormentar os outros deuses podendo manter tranqüilamente seu governo tirano. Os deuses se reúnem em um banquete e proclamam Marduk como seu senhor e vingador. Marduk enfrenta Tiamat e a derrota. Seu triunfo é coroado pelos deuses, elegendo-o o senhor do universo. Marduk cria mediante o corpo de Tiamat e dos corpos dos deuses súditos da rainha tirana, o Céu, a Terra o Abismo e o Homem, para servir aos deuses.
Marduk enfrentando Tiamat
Todos estes mitos trazem consigo o tema da necessidade de sucessão de um rei antigo que é regente de um governo tirano ou antiquado em progresso. O tema do arquétipo do rei ou do salvador do universo traz consigo a necessidade de renovação. O rei antigo precisa ser deposto, dando lugar a um novo governo, uma nova era. Podemos observar ao longo da análise como as condutas desastrosas de dois velhos governantes responsáveis por seus povos, vieram a conduzir o povo em desgraça. Primeiro Théoden estava enfeitiçado por Saruman, Rohan é devastada pelos orcs. Liberto do feitiço, Théoden toma a trágica decisão de levar seu povo para o abismo de Helm. Em Minas Tirith, cego pelo apego ao poder, Denethor toma decisões influenciadas pelo complexo de Cronos, levando seus dois filhos a sofrerem grandemente por conta de seu desejo de manter seu status.
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