nevesToda a gente sabe o que são orcs. Mas quem procurar uma descrição exata destes seres cruéis e nojentos não a encontra nos volumes de O Senhor dos Anéis.

A Wikipédia tem que pedir ajuda a uma das cartas do autor, John Ronald Reuel Tolkien, em que os orcs são comparados aos mongóis. Este fato é muito curioso se o aplicarmos, por exemplo, à opressão chinesa no Tibete. Orc ou Ork (termo vindo do latim orcus) aparece nas línguas germânicas e nos contos de fantasia medieval como uma criatura deformada e forte, que combate contra as forças “do bem”. Este conceito foi muito usado nos livros de Tolkien, O Hobbit e O Senhor dos Anéis, e virou recorrente em jogos de RPG, como D&D e World of Warcraft. Orcs são seres de peles enrugadas e reptilianas com uma tonalidade que vai do verde musgo ao marrom escuro.

Maus de natureza são seres bárbaros de notável força e igual crueldade, sendo hostis a qualquer criatura que lhes pareça mais fraca. Em O Hobbit o escritor usava a palavra goblin ao invés de orc para descrever o mesmo tipo de criatura. Mais tarde Tolkien manifestaria o desejo da mudança de “orc” para “ork” em O Silmarillion, mas o único local onde ela foi efetivamente alterada foi no livro As Aventuras de Tom Bombadil [1], no poema Bombadil Goes Boating. Na versão póstuma do Silmarillion a ortografia “orc” foi mantida.

Orcs não são apenas um povo, mas uma repugnância. Nesta figura literária, Tolkien quis incorporar toda a repulsa que sentimos pelos atos brutais, vis e pela falta de humanismo. O protótipo está naturalmente nos antigos bárbaros, como os mongóis, avançando em hordas contra a civilização. Não era apenas conflito e violência, mas uma questão de asco e náusea perante monstros inumanos.

O avançar dos tempos não eliminou essa raça repelente. Basta abrir os nossos jornais e vemos muitos denunciados como orcs. Banqueiros ou pedófilos, comunistas, cristãos, drogados ou assassinos seriais têm sido vistos assim. Ultimamente, os países árabes e o Irã com o terrorismo, mas também a China com a opressão das minorias, a Índia com as castas e a África com os ditadores surgem deste modo. Um orc não é tanto uma raça quanto um modo de ser ou agir, ou seja: não basta apenas ter nascido um ente humano, é preciso se portar como um. Os Jogos Olímpicos levantam um problema curioso no tratamento de orcs. A China organizou essa grande competição como forma de obter respeito, entrar no concerto das nações e deixar de ser considerada um monstro. Mas, como era inevitável, a atenção mediática traz ao de cima todos os crimes, perversões e abusos que a mancham. O resultado pode ser exatamente o oposto do pretendido.

Como nos devemos comportar perante orcs? É difícil saber por que, por um lado, dialogar e entabular relações são a única forma de progredir e melhorar a condição das vítimas. Por outro lado não se pode pactuar com os atropelos e no silêncio torna-se cúmplice. Lidar com orcs é terrivelmente complexo, como Frodo e Sam descobriram durante suas viagens na Guerra do Anel.

A questão piora porque, quando olham para nós, no Ocidente, os chineses, muçulmanos, indianos e africanos nos vêem como orcs. Como a Roma antiga, nós não somos a sociedade exemplar que os bárbaros devem imitar, mas uma cultura em decadência que lhes causa repulsa. A pornografia e o declínio da família, a desobediência civil e o abandono das tradições, a educação desorientada, a exaltação do divórcio, aborto e homossexualidade fazem-nos parecer verdadeiros orcs às outras civilizações. Para não falar das caricaturas e filmes que insultam outras culturas em nome da liberdade de expressão. A arrogância com que impomos os nossos valores, por vezes à bomba, aumenta o desprezo sentido por esses povos.

O pior problema dos orcs está nos que se orgulham de serem orcs. A paradoxal atração pelo mal leva essa repulsa a transformar-se por vezes em emblema de identidade. Isto existe em todas as épocas e locais, mas nunca se viu tanto como na nossa própria sociedade, sobretudo nos jovens. O berço das filosofias punk, dread, gótica e satânica é aqui, e elas são apenas o extremo de uma multiplicidade de atitudes anti-sociais. Muitas figuras públicas e pessoas comuns anseiam por se mostrar chocantes e repelentes, a arte e a televisão são freqüentemente grotescas e repugnantes. Os chineses e árabes nunca falaram tão mal de nós como falamos de nós mesmos. Somos uma civilização que despreza radicalmente a si própria.

Ser orc é, em certa medida, relativo, cada um acusando o outro disso. Talvez sejam as outras culturas quem tem razão na avaliação do Ocidente. Aliás, a alegoria de O Senhor dos Anéis é uma crítica severa à sociedade industrial. Mas é urgente romper o relativismo e estabelecer, no diálogo entre as culturas, a certeza de que os direitos humanos não constituem uma idéia ocidental, mas um princípio universal. Mais importante, é preciso assegurar que os orcs, por maior repulsa que os seus hábitos nos causem, são sempre humanos e têm de ser tratados com respeito. Se fizermos isso aos nossos monstros é mais fácil convencer disso os que nos consideram monstros. Correr, saltar e brincar com orcs é uma boa maneira de se conseguir essa aproximação.

Talvez seja essa uma das grandes lições que Gandalf havia aprendido, quando disse que sentia piedade até dos escravos de Sauron. Talvez este também seja um dos maiores valores dos Jogos Olímpicos na China.

João César das Neves
22 de fevereiro de 2007

Notas Explicativas

  1. As três partes que compõem este livro incluem, além do texto original do poema de Tolkien, duas traduções para o português. São dois poemas que procuram, através de linguagens diferentes, aproximar o leitor da poesia tolkieniana. O primeiro, do poeta William Guedes, foi feito em versos brancos, mas mantendo a métrica irregular do poema original. O segundo, de Ronald Kyrmse, reflete uma tradução mais técnica usando ao máximo o conhecimento do mundo e dos personagens do autor. A poesia que pode ter se perdido na leitura dessas duas traduções pode ser resgatada no confronto com o original inglês reproduzido integralmente na terceira e última parte deste livro.

João Luís César das Neves (Lisboa, 1957) é um economista e professor universitário português. Professor catedrático da Universidade Católica Portuguesa, é o Presidente do Conselho Científico da FCEE-Católica, onde se doutorou e licenciou em Economia. Lecciona nas áreas de Economia e Ética Empresarial, na licenciatura e no "International Master of Science in Business Administration".

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